8 de out. de 2006

Loucura




De todas as minhas mais loucas loucuras, eis que cometo a mais louca.
Saio de mim mesma e me entrego ao caráter panglossiano do amor.
Devoto-me em cometer sandices e fecho os olhos quando me atiro nesse precipício.
Meus olhos marejam lágrimas e meu coração é pequeno como um grão de areia.
Paulatinas são suas batidas e imensa é a minha felicidade.
Tal qual meu ser se curva à loquaz vontade de ser prisioneiro, de ser doido e ser tão maior do que a magnitude e amar bem mais e além, tão mais do que eu pude.

Este será o último post de outubro/2006, significa mais do que muitos outros muito mais belos e é mais íntimo do que algumas de minhas intimidades, é uma emoção descrita, o post é dedicado ao meu estimado leitor, causador de todo esse amor que impera dentro de mim.

9 de set. de 2006

De mãos dadas com a solidão















Só. O quarto escuro onde me escondo. Redondo espaço onde o verbo e o cansaço se deixam dominar. Dedo apontado ao infinito e a janela, aberta, que faz entrar o chão e a visão deste luar. Há momentos em que danço, louca, e avanço pouco a pouco pelo sono que se espanta e me traz a liberdade. Desenho no ar a fragrância fresca do metal, e deixo que o ouro me toque a pele para se perder entre o certo e o banal. Quanto pó repousa entre ti e a saudade! Quanta espuma se faz rocha enquanto o grito, aflito, não salta longe da sirene de cristal. Apago a luz e volta a claridade. Finalmente a lua que torna meiga ao regaço, e dorme nua no meigo aperto dum abraço.Silêncio. A negra tela que salpico com a frieza da dor. Homem que amo uma só vez, como a morte, que ataca forte, pausada e lenta, não volto nem minto. Branco céu onde escrevo a minha história, o meu destino. O meu silêncio é assim. Surdo e demente. Louco ébrio no coração da cidade, à procura de amor, calor e crueldade. E, se encontra os gnomos que surpreendem na noite os mais secretos e espantosos esconderijos, faz-se fogo vagabundo, pólen profundo, e, qual cadela vadia, não se deixa nunca seduzir nem apanhar?! É nortada eterna que acotovela a encosta da serra e se desfaz na doca, na boca de prostituta. É o cálido muro que esmurro a cor de sécia mole, e risco com crayon de cera virtual. É a enorme folha branca que me acorda noite fora com pesadelos e falésias, e o terror de morrer entre a espada e o vazio, sem chegar a dizer o grito que em mim encerra. Silêncio. É o nu espaço que habito, que palpito louca de solidão. Teus braços, a poesia onde me deixo perecer, sem perceber.
Embora o texto não me pertença e eu nem saiba qualificar quem o escreveu, devido ao estado de solidão em que não só eu, mas o mundo num sentido lato se encontra, e por achar de grande valia o nobre texto, o deixo aqui para que seja apreciado pelos transeuntes secretos de meu "mar de lamúrias" o lerem...

3 de set. de 2006

Nostalgia















Há tanto desejo que meu corpo tem sede, tanta sede do seu, como um transeunte a vagar num calor de 30 °C nas ruas de uma Brasília seca e pálida;

É um ardor que tanto arde como uma queimadura lívida em água fervente, acidentalmente se excita.

É um ter que não se tem e se atém à forma nostálgica de se amar que não ama

E ferve como o asfalto poluído, num chão fadado e puído, cheio de cara paciência.

É uma nostalgia que constrói cada momento e enfatiza o orgasmo do passado próximo, geme.

E tanto treme, na noite trêmula, que doem os músculos elásticos

E num arroubo de saudade latente, dorme e sonha

Saudade da saúde

Saudade da impaciência e do olhar que cobra e do corpo que pede

Ele pede que deixe

E deixa.

Por um lapso, a um colapso é ao que meu coração se fada

Por um deslize, meu corpo escorrega ao encontro do seu, se entrega

Esvai-se e se dói no drama de uma Brasília alagada de umidade seca

E umedece, sempre molha, mais do que nas chuvas torrenciais, o meu sexo

E não haver tanto nexo, em sugestões retóricas, é o que mais enfeita minha língua, o doce

No calor de uma Brasília seca e pálida, eu, pálida, durmo na chuva da umidade, da Brasília que chove: amor.

11 de ago. de 2006

Soneto da Fidelidade












De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama.

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, pôsto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Que dure o que persiste...

6 de ago. de 2006

Soneto de Separação




















De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)


Não me separei, presumo, pois separada eu já estava...mas num ímpeto de tristeza, resolvi postar aqui um dos meus mais preferidos sonetos...

Mas o refaço em alguns versos...(...) Fez-se do amigo distante o presente (...)

(o nome da imagem é o meu auto retrato: de mãos dadas com a solidão)

21 de jul. de 2006

Saúde




















Saúde a saudade!
Saudosa vontade da carne cálida
Do suor e da voz
Querer irracional, feroz
Do dever obtuso desse sábio intruso que me invade loquaz
E me ata, ateia, aquece
E quase ébrio, meu pequeno corpo enlouquece
Saudade tórrida do membro hirto
Saudade cáustica que corrói e lateja
Abissal maldade que é a minha saudade
Da boca dulcíssima que a mim me beija
Extrema e dolor, já quase mata
E todo o meu nó a mim desata
Tenaz saudade da insana vontade
De ferir meu sexo pudico
E lamber minha ferida válida
Saudosa saudade da língua que me desvirgina
O dolo do ardor que a mim contamina
Perpétua se faz
E me retoma
Leva-me à tona
E denuncia minha validade
Dói em todo o meu corpo
O terror que é essa saudade
Que como você, objeto do ardor
Sem pedir nem querer
Só a mim me invade.

9 de jul. de 2006

Significado e significante

Pensei deveras em escrever, sonhei em escrever um texto lindo, mas decidi escrever ao léo.

Hoje é um dia muito especial pra mim, é o meu aniversário, data que cultuo com fervor.
Antes de mais nada eu só vim aqui escrever e agradecer a todas as pessoas que significam pra mim e que eu significo pra elas, não sou apenas uma existência tola.
O valor, o sabor e o calor de tê-las comigo é algo com maior significado e cheio de significância.

Significar – verbo transitivo;
ter o significado de;exprimir, querer dizer;ser sinal de;denotar;manifestar;dar a entender;traduzir-se por;notificar, participar.

Exprimo por meio do meu significado, o quão é significante ter todos os meus amores significando e existindo além da minha vaidade e além do que eu mesma quero.

2 de jul. de 2006

O poder da verdade


















O poder que disciplina
A disciplina é o banquete do poder e me poda
Todo o pesar e sentimento disciplina sem poder
Sem poder atingir o alvo
Sem poder resolver o dilema
Sem poder alcançar o amor
Sem poder solucionar o problema
Aquele que encarcera minhas asas de liberdade
Aquele que alimenta o sexo da minha vaidade
Aquela que sinto por seu corpo, meu
Aquela que pertence ao lúbrico desejo, seu
O poder pode disciplinar a verdade ou a verdade disciplina o poder?
O que verte e arde é o pejo do infernal desejo
Eu posso me perder na minha verdade, vontade de perder-me
Eu posso me entregar ao abismo dos seus braços e cair em seu esplendor
Posso agir secamente, cínica e indócil ser só torpor
E doer a dor que mais dói e peleja
E beijar, onírica, ao doce céu que a mim me beija
Ainda mais, ao caos e seus breus
Cair no mar dos seus céus
E morrer amargamente na minha verdade insolúvel
A verdade que disciplina o meu poder ou o meu poder que disciplina a verdade e me disciplina?
O que é verossímil e palpável é o ardor
Aquele que flameja minhas entranhas e minha boca
Aquele que invade atroz a minha mente
A verdade, a real verdade é a minha saudade
Da sua boca no meu sexo quente.

25 de jun. de 2006








Realmente neste dia 25.06.2006, aniversário do papai, dia de parada gay em BSB e melancolia 100% só me senti compelida a plagiar...


Sete Cidades

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade.
Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu.
Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo.
Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu.
Vem depressa pra mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz:
Quando estou contigo estou em paz.
Quando não estás aqui,
Meu espírito se perde, voa longe.

Pra quem será que dedico? Dificil mesmo de saber!


17 de jun. de 2006

O meu amor


Refleti. Pensei. A vários interregnos me atirei e num mar infrutífero e abissal eu caí. Digo-te: amor que é amor não precisa de tempo, nem abdica o seu amor em favor de orgulhos e decisões precipitadamente acertadas. Amor que é amor perdoa e perdura, dura, fura, permanece. Amor que é amor ouve, fala. Amor que é amor não se vai, não abandona. Arraiga, aquece. De tudo, amor que é amor não julga, não arrefece. Faz ressurgir vida que no mar abissal foi atirada. Amor é respeito, amor é aceitação, amor é o pouco de tudo em nada.

11 de jun. de 2006

Vaidade - A descoberta


Era quente. Era dolorosamente quente. Era ardentemente quente.
Fogo fátuo, cândido.
Era quase escarlate, era uma estrela cadente.
Era uma descoberta de mim mesma tão fascinante quanto às ondas do mar.
Salgado e espesso quanto a mim mesma. Denso e delicioso quanto ao meu próprio gozo.
Cálido, válido, trêmulo.
Estava escuro e muito claro, era claro.
E tinha medo, medo pelo desconhecido. Tinha segurança, segura pela total insegurança.
Era amoroso, o calor de mim mesma em outro corpo.
Era o início, o início do meu próprio fim.
Um vício petulante, amargoso.
Era doce, o seu olhar, era seguro, o seu jeito.
Foi fascinante.
Sentir toda a água do seu mar em mim.
Engoli o mar.
Mesmo conhecendo-o um dia depois, era o prelúdio do oceano.
E amei cada milímetro.
Era um barco embriagado.
De tanto desejo e tanta lucidez válida.
Senti medo.
Depois compreendi.
O que sentia realmente era complemento. Em sua forma de extensão de mim mesma, de nós.
Compreendi que a compreensão não me acompanhava, e não me acompanha tanto.
Vivifiquei. Vivi. Sorri.
O seu gozo em mim. Tão denso e salgado quanto ao meu mesmo, suave. Quanto ao mar que entrava em mim.
Que não por suas portas legais e legíveis.
Pelos métodos carnais e plausíveis.
Vi seu corpo em mim e vivi.
Vivi o momento em mim e fui.
Fui agora sem medo.
Fui agora sem horror
Fui descompassada, mesmo que erroneamente.
Fui eu mesma.
Sem pejo, além de tudo o meu próprio desejo.

27 de mai. de 2006

Ponto de Vista






Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes


(Hilda Hilst)

20 de mai. de 2006



O Scarpim


É um pequeno desvario, uma viagem longa, algo inatingível. É triste, porque a dor se aconchega e não há braços firmes e quentes que possam retirá-la daqui. Porque o exagero é uma constância, é um pressuposto de existência. E a esperança mesmo ficta é existente nos murais dos meus editais. Acho que nesse meio tempo não há rol de culpados, nem vítimas. Uma sensação desconfortável, pra mim, é quase o fim de mim mesma, porque o meu desconforto me causa dor, dor física, dor mental, cansa. Só que o desconforto também pode trazer o costume, e logo, logo, posso me acostumar a usar o scarpim que comprei há muito tempo, basta que o desconforto que ele me causa, seja ultrapassado pelo costume de usá-lo. Usar esse lindo scarpim preto com prata dói tanto, que chega a causar dor mental, do tanto que me nego a tê-lo nos pés, mas também é até um alívio, quando o vejo me enfeitando, eis minha vaidade; todos o elogiam em mim, me sinto até bem com isso, mesmo que ele me cause um tremendo desconforto. Um dia, eu o usei teimosamente, e meus pés ficaram inchados e eu mal conseguia toca-los no chão, tive que pôr os pés de molho numa bacia com sal e água quente, no dia seguinte ainda doía aí eu coloquei uma sandalinha de dedo sem salto, mas com algumas lantejoulas e andava meio mancando. Depois daquele dia, nunca mais eu usei meu scarpim, tão preto e tão lindo, no meu armário de sapatos o vejo todos os dias, lindo, mas me recuso a pôr nos meus pés, porque ele me causa uma dor física terrível, eu até choraria de dor, se já não fosse adulta... O chinelinho de dedo, eu uso quase sempre, mas ele não é tão bonito quanto o scarpim, não chega nem aos pés! Ninguém elogia, eu nem sinto muita vontade de pô-lo, mas ele não causa dor e é bem mais fácil usar, é só meter o pé dentro e pronto, é prático...
Se te causo desconforto, como o meu scarpim me causa, não quero ser o scarpim.
Mas se sentir o desconforto, seja a menor das coisas, dentre todas as nossas coisas, as coisas minhas que exponho, a dependência....a admiração...quero ser o scarpim.
Mas não quero ficar dentro do armário. Não quero ser esquecida, tampouco quero ser o chinelo de dedo...


Chega a ser triste e anular a tudo o que eu esperava pela altura que seria... Nem sempre as coisas mais altas são aquelas que preenchem, aliás, preenche, preenche as coisas inequívocas, que pela beleza me compelem a não vê-las... Ou ver além delas (...).

13 de mai. de 2006

Nota do Autor

Nota de esclarecimento do autor: o leitor não causa dor, o autor é que se causa. O autor vê o que deve ser visto e se dói. O leitor, por sua vez, não compreende a dor que, supostamente, o autor sente.
Por saber que o leitor é seu “machucador” preposto o autor se dói porque, desta forma, não o tem – sem entrelinhas! O leitor tem medo do amor (forma, intensidade) que o autor diz sentir, mesmo assim se deixa envolver pelo autor e seu pecado.
O autor supõe que o leitor, por vezes, deseja, mas suprime tanto que causa, indiretamente, dor no autor devido à negativa excedente e desenfreada, quase incongruente.
Nisso, o autor tira seu prazer e goza em seus devaneios, porque esta luta causa prazer, porque ela gera desejo e como é permitido desejar e incendiar, o leitor remete o autor ao frêmito orgasmo.

Atenciosamente, o autor.

29 de abr. de 2006

O Leitor

Mais um relato acerca da relação amorosa, quase louca, em mais um solilóquio do pobre autor...


O leitor

O leitor mente.
Ele finge não saber a trama.
Ele vangloria o autor ao drama.
Esconde-se detrás de seu próprio medo.
Mas lê com prazer o que o autor descreve.
Ele se imagina nas fantasias do autor.
O autor é seu, numa forma stricto.
O que é legítimo procura licitude.
Vontade, confunde-se com o autor: dorme em berço esplêndido.
Demora, agora, hora, ora!
Dor é o que causa.
Mas o autor disse que extrai prazer da dor.
Prazer é o que provoca.
Afirma, confirma, firma.
O amor do prazer na dor do autor.
O fim do autor é ter o leitor.
E o leitor lê e goza do próprio gozo do autor.
Eles se entrelaçam.
Um ama escrever e o outro ama ler o que é escrito.
O sufrágio do prazer num sucinto manuscrito.
O autor escreve para que o leitor leia.
E causa tepidez e o incêndio, incendeia.
Novamente vislumbro o insano calor.
Nessa trama fascinante.
Nesse fogo faiscante.
Entre autor e leitor.


O autor já é insano que prevê os atos do leitor e vê todos os erros que in – sanamente comete.

Jan em 06.04.2006

13 de abr. de 2006

O autor

Bem, esta poesia é o início de uma série de confusões entre autor e leitor, pelo nível de intimidade, nota-se que o leitor não é um mero e o autor em forma stricto doa-se sem pudor ao seu estimadíssimo leitor, o que já não é nenhum segredo.


O autor

O autor deseja o desejo. Vangloria-se por ser querido. Martiriza-se por ser mal-amado.
Dentro do seu fogo fátuo, incendeia.
É isso o que autor deseja: o incêndio.
Ele chama as chamas perversas e perverte o denso gelo: queima.
Ele autua os autos de seus procedimentos: pró – cede (procede).
Dorme em berço esplendido: demora.
Ele se entrega ao bandido: rouba a cena.
Ele mesmo se acusa: o acusado.
Encurrala a tepidez sem dor: candura.
E se perde no inferno de seu fogo.
E morre ardendo no céu de sua graça: orgasmo.


O autor pede clemência e não tem mais nem pudor.

Porque a loucura ou a ausência de (in) lucidez é constante.

By Jan em 04.04.2006

2 de abr. de 2006

Passadas

Há um estágio em que o ponto de partida determina a ausência da minha própria inércia e mesmo estando novamente no começo, parece que eu ando com o mundo e embora tantas perdas não mais me sinto estacada no meio do caminho, também ando!
Explorar o desconhecido e conhecer o explorado.
Aprendi, com as perdas, a perder melhor.
Aprendi, com os erros, a errar menos e errar novo.
Im – pacientemente espero e ando. Ando esperando.
E sei o que não sei e me perco nessa douda discrepância.
Declarar o fato é essencial, declaro com objetividade, mesmo sendo amplamente subjetivo o que aprendi a fazer. Acho que nesse ínterim de perdas e contratempos aprendi a confiar e amar sem medo, apenas acho.
Concomitantemente ardo e canso.
Canso de arder.
Ardo até cansar.
A verdade absoluta, deste momento, é esta: ardo até cansar, descanso, e ardo tudo novamente como no meu próprio ciclo menstrual. E fico ardendo e cansando até quando eu não sei.
Aprendo a relevar e uso armas de um ser sozinho que se envolve numa casca com medo de se machucar. Mesmo assim machuco, porque a minha própria natureza me obriga e me doar, nasci para ser minha e dos outros e dou o que, por ora, é o que tenho a dar.
Felizes são os que me sorvem em quase plenitude, pois só assim alcançarão meu EU completo, até mais do que eu mesma – poço de bondade que machuca!
Machuco a dor de outrem e faço-o doer.
Dissemina-se a dor.
E sufoco com o prazer que se extrai da dor, não sinto mais dor – sou dormente – agora só prazer. A dor continua doendo, porque sempre se dói, mas é subserviente ao prazer que sinto.

O autor brinca, o autor se dá, desfrute enquanto é tempo.

26 de mar. de 2006

Simbiose

Visão Unilateral de uma girafa


Simbiose


Nota do autor: Não desejo resposta, apenas reflexão.


Aclive, conclave, declive, oh clave!

A mim me é penoso recordar.
Recordar o recorde de doações que fiz de mim mesma.
Recordar o racional raciocínio do meu próprio declínio nessa nossa discrepância.
Vejo-a puramente incongruente!
Eu questionaria o desejo de fusão, inexistente na adversidade dos seus atos e quereres. É o que vejo e sempre me acusei por recordar o desejo a mim competente e descartar, acertadamente, qualquer fumaça de vontade que ti poderia fluir, esperançosa – eu – pauvre femme! Pauvre Femme!
O quadro sinótico desse caráter verossímil e conspícuo – o meu – deixa claro, redundantemente, o quanto me sinto massacrada pelo voraz querer – e isso nem é mais meu.
E, eternamente perfeito seria se eu pudesse parar de redigir autocríticas, devodatamente, ao nosso respeito, ao meu respeito – isolo-me ao meu buraco negro.
Ardo e árdua sou.
Canso e cansada estou.
O relatório é sucinto, pergunto: será que é tão difícil assim?


By Jan em 24.03.2006 –22:32 h

5 de mar. de 2006

21 de março

Eu me estranho, me desconheço
Esfacelo os maus sem ais de um recomeço
Não importa quem foi tal, o sal, eu ensandeço
E teu sobrenome, sem pré ou pronome, enlouqueço!
Qual é teu nome?
Qual é tua vida?
Buscaste alma esquecida no mar das almas?
Sangraste da mesma ferida nos seios de mulheres calmas?
De ferida cálida, disfarçaste a sua trôpega e inválida sensação libertina?
De mulher em mulher se desfez em meus braços pudica menina?
E minha pelo segundo foste descompassada
E doce beijou-me como se fosse eu tua amada?
De dor em dor se desfez a minha chama
De antro em antro dormiste a cá em minha cama?
E te despiste, e nua a mim mostraste teu peito lívido
E apareceste imaculado teu coração vívido...
Amante onírica que sempre estás comigo
Pungente e apática...comportada e fanática
Do meu fanatismo, meu maniqueismo
És a profundidade do meu abismo
E do mar de sal
Do caos
sem maus
orquídea ancestral...


Porque a loucura e a negação parecem ser constantes...

21 de jan. de 2006

Eu tenho medo

Vasculhando meus papéis, andando pelos caminhos caudalosos que são meus arquivos mortos, deparei com um texto, o qual me referia a um ser de outro mundo, que de tão distante se desfez em minha mente e como um anjo, santo, ou similar se acomoda em algumas de minhas preces. Descobri que a minha solidão é a mesma que sempre me acolhe e sempre me lambe se eu preciso, decobri, ainda, que ela é a única que permanece em todos os tempos cá comigo, arraigada em meu peito, em meu pequeno ser...advirto que em determinada parte do solilóquio, lá me deparo com um tal "corpo marino" que sejam marinos todos os corpos que eu desejo, que sejam meneados esses sais, desses corpos marinos, que são marinos porque vêm da profundidade do mar abissal que é a minha solidão em mim.


Nesses nós mal atados que são minhas andanças
Pergunto-me por diversas vezes o que há de errado
Expressões retilíneas e pouco significado
Expressões oscilantes e eterno sonho conflitante
Presenciei um amor
Estive ao lado dele
E o senti pulular como o sangue fervente que jorrava em minhas veias
Eu sempre o tive distante
Sabia de suas vidas, mas não tinha seus corpos
Hoje eu não sei de sua vida, mas senti sua pulsação ao meu lado
Eu tive o corpo que sorria, que gracejava
Eu me contive, eu fiz mil poemas
Esqueci a maioriaSenti seus cabelos sedosos
E seus dentes alvos
A textura de sua pele eu apenas imaginei
Senti sua temperatura amena
E seus olhares desconfiados
Continuei a ler a vida do "Peter" (Lessing,Doris - Andando na sombra)
Aquelas letrinhas minúsculas à escuridão
Tente disfarçar o que sentes eu pensava
Mas na verdade
A única coisa que eu queria era exatamente ter o corpo
Mas não era o que me pertencia ali naquele momento
Era o corpo perpétuo e jovem
Magro e esculpido para mim
Eu pensei que sem pretensões ele inda é meu
Ou ele será meu
Ou ele se emprestará a mim
Eu olhava ao lado
E lá estava um corpo esbelto, um sorriso cálido
Em minha mente Florbela Espanca
Em minha mente o corpo marino
Essas devassidões que me acometem...
Estive pensando
Estive vendo o nó
Estive analisando o só
Que por ventura, louco
Não se prende a isto tão débil
Não se faz vítima por ser estéril
Não se deixa atormentar por ela
Não se faz olhar pela janela e ver as sombras
Do breu mais vazio
E debater consigo
E ver que teu maior inimigo
É teu próprio peito!


Eu tenho medo desse meu inimigo, uqe me faz perder entre vãos escuros e caóticos de corpos que não me pertencem, mas por excelência são meus, isso irônicamente, sardonicamente e dolorosamente, uma mentira, que de tão mentirosa eu chego a acreditar...

*Mais que isso - Ana Carólina*