27 de mai. de 2006

Ponto de Vista






Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes


(Hilda Hilst)

20 de mai. de 2006



O Scarpim


É um pequeno desvario, uma viagem longa, algo inatingível. É triste, porque a dor se aconchega e não há braços firmes e quentes que possam retirá-la daqui. Porque o exagero é uma constância, é um pressuposto de existência. E a esperança mesmo ficta é existente nos murais dos meus editais. Acho que nesse meio tempo não há rol de culpados, nem vítimas. Uma sensação desconfortável, pra mim, é quase o fim de mim mesma, porque o meu desconforto me causa dor, dor física, dor mental, cansa. Só que o desconforto também pode trazer o costume, e logo, logo, posso me acostumar a usar o scarpim que comprei há muito tempo, basta que o desconforto que ele me causa, seja ultrapassado pelo costume de usá-lo. Usar esse lindo scarpim preto com prata dói tanto, que chega a causar dor mental, do tanto que me nego a tê-lo nos pés, mas também é até um alívio, quando o vejo me enfeitando, eis minha vaidade; todos o elogiam em mim, me sinto até bem com isso, mesmo que ele me cause um tremendo desconforto. Um dia, eu o usei teimosamente, e meus pés ficaram inchados e eu mal conseguia toca-los no chão, tive que pôr os pés de molho numa bacia com sal e água quente, no dia seguinte ainda doía aí eu coloquei uma sandalinha de dedo sem salto, mas com algumas lantejoulas e andava meio mancando. Depois daquele dia, nunca mais eu usei meu scarpim, tão preto e tão lindo, no meu armário de sapatos o vejo todos os dias, lindo, mas me recuso a pôr nos meus pés, porque ele me causa uma dor física terrível, eu até choraria de dor, se já não fosse adulta... O chinelinho de dedo, eu uso quase sempre, mas ele não é tão bonito quanto o scarpim, não chega nem aos pés! Ninguém elogia, eu nem sinto muita vontade de pô-lo, mas ele não causa dor e é bem mais fácil usar, é só meter o pé dentro e pronto, é prático...
Se te causo desconforto, como o meu scarpim me causa, não quero ser o scarpim.
Mas se sentir o desconforto, seja a menor das coisas, dentre todas as nossas coisas, as coisas minhas que exponho, a dependência....a admiração...quero ser o scarpim.
Mas não quero ficar dentro do armário. Não quero ser esquecida, tampouco quero ser o chinelo de dedo...


Chega a ser triste e anular a tudo o que eu esperava pela altura que seria... Nem sempre as coisas mais altas são aquelas que preenchem, aliás, preenche, preenche as coisas inequívocas, que pela beleza me compelem a não vê-las... Ou ver além delas (...).

13 de mai. de 2006

Nota do Autor

Nota de esclarecimento do autor: o leitor não causa dor, o autor é que se causa. O autor vê o que deve ser visto e se dói. O leitor, por sua vez, não compreende a dor que, supostamente, o autor sente.
Por saber que o leitor é seu “machucador” preposto o autor se dói porque, desta forma, não o tem – sem entrelinhas! O leitor tem medo do amor (forma, intensidade) que o autor diz sentir, mesmo assim se deixa envolver pelo autor e seu pecado.
O autor supõe que o leitor, por vezes, deseja, mas suprime tanto que causa, indiretamente, dor no autor devido à negativa excedente e desenfreada, quase incongruente.
Nisso, o autor tira seu prazer e goza em seus devaneios, porque esta luta causa prazer, porque ela gera desejo e como é permitido desejar e incendiar, o leitor remete o autor ao frêmito orgasmo.

Atenciosamente, o autor.