
O Scarpim
É um pequeno desvario, uma viagem longa, algo inatingível. É triste, porque a dor se aconchega e não há braços firmes e quentes que possam retirá-la daqui. Porque o exagero é uma constância, é um pressuposto de existência. E a esperança mesmo ficta é existente nos murais dos meus editais. Acho que nesse meio tempo não há rol de culpados, nem vítimas. Uma sensação desconfortável, pra mim, é quase o fim de mim mesma, porque o meu desconforto me causa dor, dor física, dor mental, cansa. Só que o desconforto também pode trazer o costume, e logo, logo, posso me acostumar a usar o scarpim que comprei há muito tempo, basta que o desconforto que ele me causa, seja ultrapassado pelo costume de usá-lo. Usar esse lindo scarpim preto com prata dói tanto, que chega a causar dor mental, do tanto que me nego a tê-lo nos pés, mas também é até um alívio, quando o vejo me enfeitando, eis minha vaidade; todos o elogiam em mim, me sinto até bem com isso, mesmo que ele me cause um tremendo desconforto. Um dia, eu o usei teimosamente, e meus pés ficaram inchados e eu mal conseguia toca-los no chão, tive que pôr os pés de molho numa bacia com sal e água quente, no dia seguinte ainda doía aí eu coloquei uma sandalinha de dedo sem salto, mas com algumas lantejoulas e andava meio mancando. Depois daquele dia, nunca mais eu usei meu scarpim, tão preto e tão lindo, no meu armário de sapatos o vejo todos os dias, lindo, mas me recuso a pôr nos meus pés, porque ele me causa uma dor física terrível, eu até choraria de dor, se já não fosse adulta... O chinelinho de dedo, eu uso quase sempre, mas ele não é tão bonito quanto o scarpim, não chega nem aos pés! Ninguém elogia, eu nem sinto muita vontade de pô-lo, mas ele não causa dor e é bem mais fácil usar, é só meter o pé dentro e pronto, é prático...
Se te causo desconforto, como o meu scarpim me causa, não quero ser o scarpim.
Mas se sentir o desconforto, seja a menor das coisas, dentre todas as nossas coisas, as coisas minhas que exponho, a dependência....a admiração...quero ser o scarpim.
Mas não quero ficar dentro do armário. Não quero ser esquecida, tampouco quero ser o chinelo de dedo...
Chega a ser triste e anular a tudo o que eu esperava pela altura que seria... Nem sempre as coisas mais altas são aquelas que preenchem, aliás, preenche, preenche as coisas inequívocas, que pela beleza me compelem a não vê-las... Ou ver além delas (...).