
Ruim não é quando se perde alguém que está entregue eminentemente aos braços da morte.
Dor que dói e não pára, é perder quem vive e não acalenta aos soberbos desejos de quem vive, mas de quem morre.
O silêncio mais eloqüente não é vivido por quem quase morre, mas por quem quase vive.
Meu pecado mais vil é consentir o enterro vivido.
Meu pecado mais pecaminoso é estar quase viva, quando alguém está quase sem vida.
A morte mais dolorida e o enterro mais tenebroso é o de alguém que está na eminência da vida.
E o pressuposto mais certo e menos cético é saber que eu, num dia qualquer posso estar atestadamente sem vida, tanto eu, quanto aos demais que vivem.
O prazo de validade, legitimidade, vida, logo se esgotará (tic tac, tic tac, tic tac)
E eu tão cheia de morte em vida, estarei tão morta na morte tão lívida.
Estou doendo, porque em mim há vida que esgota, que arrefece, que morre.
E viver é um egoísmo com quase nexo.
Tão paradoxal quanto ao medo da morte e da dor de quem fica.
Quem fica morre quase como quem perde a vida.
Porque dói e morre um pouco de alegria, morre um pedaço de mim.
E outros morrem na vida, porque a dor de quem fica mata a esperança dos que têm vida e viram um nada imenso perto da dor da perda de quem morre.
A minha dor mais quimérica é a de morrer mesmo tendo um pouco de vida que morre.
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